sexta-feira, 25 de novembro de 2011

último dia




Eu, amor, deitava-me ao sol, sobre o restolho  e ficava a  sentir o cheiro da erva seca, ainda ligeiramente húmida, aquele cheiro adocicado que  excita, como o cheiro de um corpo, alguma ave cruzaria o céu , voando alto, depois era o silêncio, só silêncio.





domingo, 13 de novembro de 2011

O peugeot da magia








Quando vi a primeira imagem no écran, pensei que história começaria a seguir,mas não,novas imagens de Paris se seguiram e só depois de terem sido projectadas umas seis (na verdade, não as contei) é que se inicia a história.Começar o filme com uma série de bilhetes postais sobre Paris, não foi uma ideia que me tenha agradado...

A imaginação do Woody Allen nunca me deixa indiferente, ao contrário, surpreende-me. Tendo sempre a sua marca pessoal, imediatamente reconhecível, os seus filmes são sempre bastante diferentes uns dos outros.

Aqui trata-se do tema da insatisfação permanente de que sofre o ser humano, que quase sempre aspira a coisas diferentes das que tem.O protagonista desta história, Gil Spender,é um americano que visita pela segunda vez Paris acompanhado da futura mulher e dos futuros sogros, estes com grandes expectativas relativamente ao futuro promissor que desejam para a filha.

Gil Spender é um aspirante a escritor, que tem na forja um livro quase acabado, mas sobre o qual tem algumas dúvidas quanto ao interesse literário que o mesmo possa ter. Ao deambular, sozinho por Paris, depois de ter estado numa prova de vinhos, vê-se perdido e acaba por sentar-se nos degraus de uma igreja, à espera de que alguém ou alguma coisa o resgate do desamparo em que se encontra.E de facto, esse desejo realiza-se, porque, logo após terem soado as badaladas da meia noite surge na rua estreita e íngreme onde se encontra um carro antigo, um peugeot amarelo, de capota preta. Um dos passageiros desce e convida-o a entrar para juntamente com os outros ocupantes, irem curtir a noite. Na sequência, o protagonista acaba por entrar numa festa, onde toda a gente se diverte e onde conhece um casal, que se apresenta, ele, como sendo Scott Fitzgerald e ela como Zelda, sua mulher.

Numa magia que só acontece depois de terem soado as badaladas da meia noite, é criada uma realidade paralela, onde Gil Spender vive durante a noite. Para esta realidade vão sendo convocadas diversas pessoas como Hemingway, Picasso, Luis Buñuel, Dalí, Cole Porter. Só que em cada noite o tempo vai recuando mais, aparecem outras pessoas, Gauguin, Degas, Modigliani, todas a viverem em realidades que aparecem brilhantes, divertidas e sem problemas, o que faz com que Adriana, a mulher por quem Gil de havia apaixonado na realidade paralela, lhe sugira que fiquem para sempre naquela que ficou conhecida como a idade de ouro. Mas Gil recusa e decide concretizar o seu desejo de ficar a viver em Paris e abraçar de vez a ideia de ser escritor.

Assim termina o filme, com o protagonista de costas voltadas para o espectador, a andar ao longo do Sena, em direção ao futuro.


( a minha visão do filme Meia noite em Paris, de Woody Allen)









sexta-feira, 11 de novembro de 2011

João Gilberto - Você e Eu

Os plantadores de nogueiras










No ano em que começou a guerra do Kuweit eu estava a passar férias em Sesimbra, num apartamento próximo do Castelo com uma vista espectacular para a baía. Eu descia a pé para a praia e por lá ficava até por volta das duas da tarde, sempre envolta na neblina que durante muitos dias por ali pairou nos primeiros dias de Agosto.


Embora não tenha por hábito ler na praia, naquele ano resolvi levar comigo a Simone de Beauvoir, que conhecia sobretudo como companheira de Sartre,dela só tendo lido um livro, de que aliás gostei bastante e se chama Uma morte serena.


Terá sido provavelmente essa lacuna que me levou a escolher por companhia o Deuxième Sexe, cuja leitura ao fim de algum tempo se revelou tão deprimente que o abandonei.


Devo ter parado a leitura no ponto em que escritora falava sobre a irreversibilidade da idade, segundo ela,a partir dos quarenta anos de idade, mais nenhum projecto de vida é viável para o ser humano, por falta de tempo de vida.


Sei, tanto por ter visto, como por ter vivido, que vamos fazendo projectos durante toda a nossa vida, podem ser projectos pequenos, como aprender a cozinhar, a nadar, a andar de bicicleta, mas todos sabemos que projectos grandiosos, como construir uma catedral ou esculpir um David, não são projectos ao alcance de todos, independentemente da idade.


Li recentemente uma notícia que dizia que o João Gilberto, o criador da bossa nova, agora com oitenta anos, se prepara para uma digressão por diversas cidades.


Não consegui deixar de sorrir, ao ler a notícia e pensei que, graças a deus, existem plantadores de nogueiras, com o que o mundo provavelmente continuará a girar...













































segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Arco do Triunfo

Vivi com Ravic durante algum tempo. Na altura tinha catorze anos e fumava Du Maurier, embalado numa caixa vermelha de dez cigarros, uma caixa simples,  mas sofisticada, onde os cigarros vinham envolvidos num papel dourado.O tabaco inglês era tão aromático que ao queima dava prazer até a quem não o fumava.

Sofri durante todo o tempo que vivi com o Ravic, sofri com a vida nocturna e clandestina que levava e com as muitas cirurgias que fazia, numa sala a que uma luz fluorescente dava um ar lúgubre.

Felizmente havia uma mulher alta e de gabardine que muitas vezes o esperava à saída da clínica.Juntos desciam a avenida onde os candeeiros, banhados pela neblina da quase madrugada, projectavam luz no passeio húmido que brilhava e lhes reflectia as sombras, quase iguais.Costumavam parar num café onde compravam uma garrafa da Calvados que o empregado embrulhava em papel de jornal. Depois seguiam para a pensão decrépita onde Ravic vivia. Subiam até  ao quarto, frio e impessoal, apenas  iluminado com a luz que chegava da rua. Sentavam-se sobre a cama, vestidos e começavam a beber, lentamente, abraçando-se, como se o outro fosse tudo o que lhes restava naquela Paris ocupada  pela Alemanha.

Anos mais tarde, num passeio matinal , passei pela primeira vez pelo Arco do Triunfo, mas não me lembrei do Ravic. Nessa altura ele já tinha uma identidade física, era Charles Boyer e a amante de gabardine a Ingrid Bergman.Quanto ao mítico Calvados, que eu não esquecera, lembro-me de o ter bebido pela primeira vez no apartamento da madame X, para os lados da Place d'Orleans. Foi num Carnaval,  em fevereiro, os dois copos estavam sobre uma mesa de madeira, grande e rústica, com que sempre sonho quando me penso em trânsito para um outro lado.
(Arco do Triunfo é um livro de Erich Maria Remarque e esta é a memória que dele conservo)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pão-por-deus

Todos os anos, no dia de pão-por-deus, o meu avô Luís ia visitar os netos, pela manhã e a cada um deles levava um brindeiro e um saquinho de tremoços. O brindeiro era uma espécie de papo seco, que as padarias só coziam no dia 1 de novembro e serviam apenas para brindes, daí o nome que, diga-se de passagem, não encontrei no dicionário que consultei. Mas era assim que eram conhecidos na minha terra.

Era sempre com alguma ansiedade que eu aguardava a chegada do meu avô, que costumava passar pela nossa casa por volta do meio dia, no final do seu périplo pelas casas das filhas, a nossa casa era a última que ele visitava, de regresso à sua.

Enquanto esperava por ele, eu cirandava pelo quintal e pela casa com um saco de chita a tiracolo. O saco era feito pela minha mãe, com tecido comprado de propósito, na bainha do remate ela enfiava uma fita de nastro, cujo comprimento ajustava à medida do meu tamanho. Depois de pronto,ela metia dentro dele uma fruta de cada das que havia na época, pero vime, anona, abacate,laranja, banana, nozes, figos, castanhas cruas e castanhas cozidas com sal, açucar, canela e erva dôce, às quais depois iam fazer companhia o brindeiro e os tremoços trazidos pelo meu avô.Era só no fim do dia e à hora de eu ir dormir, que o saco finalmente repousava, cheio de fruta esborrachada e de cascas de nozes.

Naquela bela história que todos nós lemos, o princepezinho pergunta à raposa o que é um rito, ao que a raposa responde que é aquilo que faz com que um dia seja diferente dos outros.

Não sei por onde andarão o meu avô e a minha mãe, mas se tiverem passado por cá hoje, devem ter gostado de ver a fruteira com bananas, maçãs,anonas,abacates e laranjas.As castanhas cozidas tiveram honra de taça de vidro, e os figos recheados com nozes estão sobre a mesa da sala de jantar,à espera de qualquer visita inesperada.Ao lado deles, também à espera, está uma garrafa de vinho do porto, Lágrima...