domingo, 21 de outubro de 2012

GOLDEN GATE


 
Chego à Praça, vinda do lado norte e olho as convidativas cadeiras de verga do Café, dispostas no passeio. É um passeio largo onde jacarandás centenários, ainda floridos, fazem um dossel sobre os bancos dispostos aqui e ali, para descanso ocasional de quem passa e se senta para olhar o mundo, por instantes.
Às vezes entro no Café e vou para o varandim, subindo a escada de madeira que leva ao andar superior, é uma bela escada, tem qualquer coisa de hollywoodesco, e lá, se disponível, escolho uma mesa com vista para o Palácio e para o mar e fico a olhar os passantes, inventando-lhes vidas.
Mas hoje escolho uma mesa no passeio, antes de me sentar virei o coxim, à procura de qualquer moeda caída no assento, quem sabe não encontro o euro necessário para o meu café curto.
Mas não havia moeda alguma, nem mesmo o resto de um arco iris. Apesar do pequeno desapontamento, encomendei o café e fechando os olhos para melhor saborear o sol, fiquei à espera que mo servissem.

 

domingo, 23 de setembro de 2012

romeu e julieta




Três dias depois do fim, ainda permanecia inerte.Os pontos cardeais de nada serviam e a bússola repousava sobre a mesa, apenas como um objecto decorativo.Não sabia onde ficava o norte, mas isso  nada importava,pois queria ir para o sul.Queria ir para a casa que ficava no largo cujo nome havia esquecido, só a casa existia na memória, alta apenas o suficiente para que alguém morresse se de uma janela se despenhasse.A cobertura era um terraço donde se via o mar,ao alcance da mão, quase.

Num dos quartos havia bonecas de loiça e uma conversadeira, aos pés da cama.Na sala havia um piano sempre aberto, sofás vermelhos de damasco, e um quadro onde um romeu que não era montecchio tentava alcançar uma julieta que não era capuleto, num esforço nunca recompensado, porque eternamente estático.

Chopin saía do piano em nocturnos diurnos trazidos pelas mãos da pianista, outras vezes quem vinha era  Shubert, que depois de se ter apresentado ia para o  quarto da costura, onde todas as tardes se bebia um gorreana, acompanhado por bolachas maria com marmelada.

Ao fim dos três dias caíu a primeira chuvada de outono.Foi quando decidiu partir. Foi como estava, só as costas lhe doíam.









sexta-feira, 9 de março de 2012

UMA PEQUENA MANHÃ



Henriqueta Evangelista acordou suavemente. O relógio digital marcava oito e trinta, o cão brincava debaixo da cama e as pombas faziam-se ouvir no parapeito da janela.
Quando abriu os olhos viu no alinhamento do olho direito a mão pousada sobre a cama, vista daquela perspectiva assemelhava-se a um pequeno deserto de areia, onde as veias e os ossos pareciam formar dunas.

 Levantou-se sem pressas, foi erguer as persianas e aproveitou para olhar o dia. O céu começava a ganhar cor e a orquídea continuava em luta pela floração, quanto mais tarde florisse, mais tarde morreria, pensou, talvez durasse até ao verão.

Foi quando sentiu que ele tinha acabado de chegar, já não vinha há algum tempo, chegava sempre assim, em silêncio e inesperadamente, depois partia e deixava recordações.
"Que memórias me trouxeste hoje", perguntou-lhe e ficou à espera que ele fizesse presente algum passado, mas ele apenas respondeu " estás a olhar-me com espanto não sei porquê", mas ela não diz nada, passaram já tantos anos que mais nenhuma resposta é necessária.

Por isso, voltou-lhe as costas e foi para a cozinha, escolheu duas maçãs vermelhas, lavou-as cuidadosamente, depois partiu-as com gestos lentos, "eis o meu corpo" e com elas num saco foi para o jardim que circundava a casa, por onde costumava vagabundear durante horas, esquecida do tempo.

Deu-lhe para ir ver as árvores, começou a enumerá-las baixinho,  anoneira, papaieira,  mangueiro, abacateiro,jamboeiro,pitangueira,gostava muito da pitangueira, as flores cheiravam a flor de laranjeira e os frutos tinham uma forma curiosa, em gomos, e um caroço enorme, inesperado para o tamanho do fruto.

Em criança tinha brincado com pitangas, trocara enxovais das bonecas por elas e depois  colocava-as cuidadosamente numa caixa de cartão.

Às vezes vinham maduras, eram vermelhas e frágeis, desfaziam-se facilmente em água e só o caroço ficava na caixa, amarelo, evidente, a deixá-la triste. Mas ainda não era o tempo das pitangas e também já não era o tempo da infância, era um tempo de nevoeiro, que tinha começado a descer e tornava difícil o regresso a casa.

Agora via o gato da Marta,  seguia à sua frente levando-a até à mesa onde jaziam cartas de jogar à espera que ela completasse o solitário



domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal

Tenho amigos
antigos
certos
fiéis
de todas as horas
para todas as horas

Tenho amigos
que me amam
que me escutam
que me aconselham
que me ajudam

Tenho amigos
que não me esquecem
que me admiram
que me defendem
que rezam por mim todos os dias

Tenho amigos que me telefonam
que me escrevem
que não me telefonam
nem escrevem
mas pensam em mim

mas nenhum me abraça
com um abraço maternal,
aquele que se faz com dois braços
e um colo
e cria um espaço terno e invulnerável
que nos defende de tudo,
até da morte...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

TRANSLAÇÃO

deitar o esqueleto sobre a cama
esticar devagar os membros inferiores
deixar flectida em ângulo  a perna esquerda
unir como rezando as mãos
procurar junto à almofada o livro
escutar o oceano,
o que escuto é pacífico,
e pacifico-me depois com profecias
habito nelas
ou nos sonhos onde descubro raízes ou temores
acordo e recomeço,
como um planeta dou a volta ao dia
numa translação infinitamente pequena
de novecentos e sessenta minutos
até deitar o esqueleto sobre a cama
e esticar devagar os membros inferiores
deixando a perna esquerda flectida, levemente

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Luca Carboni - Virtuale

virtualmente...

Os cotovelos apoiados na mesa
a cabeça entre as mãos
o cabecear ligeiro
os vaga lumes do outro lado da vidraça
as copas dos pinheiros mansos
uma nesga de mar
a lua
o ouvido que lateja
a humidade que faz tossir
o bronco haler
as ausências
a fadiga
os irreversíveis nãos
as horas
já são horas
vou dormir
apago  a luz
apago
me.